terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Visão Crítica


Visão Crítica

Tendo como pretexto a construção do convento de Mafra, Saramago, adoptou a prespectiva de um narrador distanciado do tempo da história, apresentando uma visão crítica da sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII. É neste sentido que Memorial do Convento excede a classificação de romance histórico, uma vez que não se trata de uma mera constituição de um povo sujeito à tirania de uma sociedade do século XXII.
Logo desde o início do romance é visivél o tom irónico e, até mesmo, sarcástico do narrador relativamente à hipotética esterilidade da rainha e às inidelidades do rei. Esta atitude irónica do narrador mantém-se ao longo da obra, denunciando o comportamento desadequado do rei, a sua vaidade desmendida e as promeças megalómanas.
O Clero, que exerce o seu poder sobre o povo ignorante através da instauração de um regime repressivo entre os seus seguidores e que constantemente quebra o voto da castidade, também não escapa ao olhar crítico e sarcástico do narrador. A actuação da Inquisição que, à luz da fé cristã, manipula os mais fracos é de igual modo criticada ao longo do romance, nomeadamente, através da apresentação de diversos autos-de-fé e uma crítica às pesoas que dançam em volta das fogueiras onde se queimaram os condenados.
Assim, são sobertudo as personagens de estatuto social privilegiado o alvo da crítica do narrador que denuncia as injustiças sociais, a omnipotência dos poderosos e a exloração do povo, evidenciada nas miseráveis condições de trabalho dos operários do convento de Mafra. 



  

Linguagem e Estilo de José Saramago


Linguagem e Estilo de José Saramago

Ruptura com a norma linguística no que repeita à pontuação no discurso directo á abolido o uso da virgula e dos dois pontos, sendo substituído pelo ponto de interrogação e outros sinais de pontuação, marcando-se o início de cada fala apenas pelo uso da maiúscula inicial;
O uso da vírgula é o sinal mais importante: separa as várias falas da personagem e marca os momentos da enumeração;
Coexistência de várias modalidades discursivas tais como a narração, a descrição, o discurso directo e indirecto livre, o monólogo interior e apartes;
Interpelações directas ao leitor criando um ambiente de cumplicidade entre o narrador e o leitor;
Uso predominante do presente do indicativo;
Uso do polissíndeto;
Uso da enumeração;
Aproveitamento de provérbios e aforismos;
Presença da metáfora sugestiva
Uso de trocadilhos;
Uso da Ironia;
Presença da metáfora sugestiva;
Jogo de expressões antinómicas;
Uso de uma linguagem barroca devido ao carácter detalhado da escrita;
Criação de neologismos.
      

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Dimensão Simbólica em Memorial do Convento




Dimensão Simbólica em Memorial do Convento

O Convento de Mafra, mandado construir por D. João V, simboliza a ostentação, a opressão e a vaidade dos poderosos. Representa também o sacrifício dos operários que construíram o monumento, a exploração e miséria do povo. O número sete, que muitas vezes aparece em Memorial do Convento, também carrega alguma simbologia. Sete são as vezes que Blimunda passa em Lisboa, em demanda de Baltasar. Este número regula os ciclos da vida e da morte na Terra e pode ligar-se à ideia de felicidade, de totalidade, de ordem moral e espiritual. O Sol, associado a Baltasar e ao povo, sugere a ideia de vida, de renovação de energias (o povo trabalha até à exaustão no convento, Baltasar constrói uma máquina, mesmo depois de amputado). Como o Sol, que todos os dias tem de vencer os guardiães da noite, também Baltasar vence as forças obscuras da ignorância e da intolerância ao voar. A Lua, símbolo do ritmo biológico da Terra, traduz a força vital que é representada pelas vontades recolhidas por Blimundapara fazer voar a passarola.                 Associada a Blimunda, lembra o seu mágico poder de «ver às escuras». Apassarola traduz a harmonia entre o sonho e a sua realização. Graças ao sonho, foi possível juntar a ciência, o trabalho artesanal, a magia e a arte, para fazer a passarola voar. Representa o progresso, a liberdade, a alternativa a um espaço de repressão, intolerância e violência.




Categorias da Narrativa em Memorial do Convento



CATEGORIA NARRATIVA TEMPO EM "MEMORIAL DO CONVENTO"
Tempo


 Início da Narrativa = 1711

 O rei casou em 1708 (refere-se que a rainha tinha chegado há mais de 2 anos).

 O rei nasceu em 1689 (refere-se que o rei tem 22 anos = 1711).


 As referências temporais são poucas mas as datas que existem, e que são importantes, permitem-nos seguir cronologicamente a acção, através de deduções.

 Prolepses – encontram-se integradas nas digressões mentais.
Narrador
Estatuto de omnisciente, estão aliadas à ironia. Presente nos Capítulos XV, XVII, XVIII.
Representa-se como narrador-orador capaz de simular um imediatismo no acto de narrar e dando lugar a dialogismos mais ou menos configurados no discurso;

Captar a atenção do narratário, convocado para o discurso, tanto por uma pluralidade ambígua (nós) como por um indefinido (“Veja-se”) – que se pretende participante no acto de contar;
“O agora” – 1729

 1730 – Data da inauguração / sagração do Convento (D. João V tem 41 anos) Cap. XXIV.

Desaparecimento de Baltasar no dia em que todos vão assistir à Sagração do Convento; ele vai para Montejunto a fim de consertar a máquina que está lá escondida. (Cap. XXIII).

A narrativa termina em 1739 – após os 9 anos em que Blimunda procura Baltasar.



Encontra-o no Rossio a ser queimado com António José da Silva, o Judeu; temos, neste caso, mais uma indicação histórica verídica.

Conclusão: Saramago diz que a História é ficção por isso, há um desprezo pelo tempo cronológico.



A Acção

A acção é constituída por sequências narrativas (acontecimentos) provocadas ouexperimentadas pelas personagens, que se situam num espaço e decorrem num tempo, maisou menos, extenso. A acção é fechada quando se conhece o desenlace da história, ou seja, ofinal é revelado; e é aberta sempre que se verifica o contrário, normalmente, incitando àreflexão sobre a mesma.
Acção principal

Consiste nas sequências narrativas com maior relevância dentro da história e que, porisso, detêm um tratamento privilegiado no universo narrativo. Em Memorial do Convento de José Saramago:
A edificação do convento de Mafra – desejo e promessa de D. João V.



Acção secundária

A sua importância depende da acção principal, em relação à qual possui menor relevância.
Em Memorial do Conventode José Saramago:
A construção da «máquina voadora» – sonho do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão;bem como a história de amor entre Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis.

Ritmo temporal

O tempo da diegese pode ser maior do que o do discurso – anisocronia temporal (o narrador omite (elipse) ou sumaria o que aconteceu em determinado período temporal);
 O tempo da diegese pode ser menor do que o do discurso – anisocronia temporal (o narrador procede a descrições, divagações, reflexões, pausas narrativas);
O tempo da diegese pode ser idêntico ao do discurso – isocronia temporal (exemplo: diálogos).


Espaço

Evocação de dois espaços principais determinantes no desenrolar da acção: Mafra e Lisboa.

Mafra: Passa da vila velha e do antigo castelo nas proximidades da Igreja de Santo André para a vila nova em cujas imediações se vai construir o convento. A vila nova cria-se justamente por causa da construção do convento.

Lisboa: Descrevem-se vários espaços dos quais se destacam o Terreiro do Paço, o Rossio e S. Sebastião da Pedreira.


Personagens

D. João V: Proclamado rei a 1 de Janeiro de 1707, casou, no ano seguinte, com a princesa Maria Ana de Aústria e vive um dos mais longos reinados da nossa história. Surge na obra só pela sua promessa de erguer um convento se tivesse um filho varão do seu casamento. O casal real cumpre, no início da obra, com artificialismo, os rituais de acasalamento. O autor escreverá o memorial para resgatar o papel dos oprimidos que o construíram. Rei e rainha são representantes do poder, da ordem e da repressão absolutista.

Baltasar e Blimunda: são o casal que, simbolicamente, guardará os segredos dos infelizes, dos humilhados, dos condenados, enfim, dos oprimidos. Conhecem-se durante um auto-de-fé, levado a cabo pela Inquisição, o de 26 de Julho de 1711 e não mais deixam de se amar. Vivem um amor sem regras, natural e instintivo, entregando-se a jogos eróticos. A plenitude do amor é sentida no momento em que se amam e a procriação não é sonho que os atormente como sucede com os reis.

Blimunda: Com poderes que a tornavam conhecedora dos outros nos seus bens e nos seus males, recusando-se, no entanto, a olhar Baltasar por dentro. Vai ser ela quem, com Baltasar, guardará a passarola quando o padre Bartolomeu vai para Espanha onde, afinal, acabará por morrer. Ela e Baltasar sentir-se-ão obrigados a guardá-la como sua, quando, após uma aventura voadora, conseguira aterrar na serra do Barregudo, não longe de Monte Junto, perdido o rasto do padre que desaparecera como fumo. Quando voltaram a Mafra, dois dias depois, todos achavam que tinha voado sobre as obras da basílica o Espírito Santo e fizeram uma procissão de agradecimento. Começaram a voltar ao local onde a passarola dormia para cuidar dela, remendá-la, compô-la e limpá-la.


Povo: Todos os anónimos que construíram a História são representados através daqueles a quem o autor dá nome: Alcino, Brás, Nicanor, etc.

Padre Bartolomeu de Gusmão: Tem por alcunha O Voador, gosto pelas viagens, estrangeirado, a ciência era, para ele, a preocupação verdadeiramente nobre. O rei mostra-se muito empenhado no progresso do seu invento. A populaça troça dele, Baltasar e Blimunda serão ouvintes atentos das suas histórias e sermões. A amizade destes dois seres, simples, enigmáticos, mas verdadeiros protagonistas do Memorial, é tão valiosa para o padre como necessária à representatividade da obra como símbolo de solidariedade e beleza em dicotomia com egoísmo e poder.

Baltasar, Blimunda e o padre Bartolomeu Lourenço:
Formam um trio que vai pôr em prática o sonho de voar. Assim, o trabalho físico e artesanal, de Baltasar, liga-se à capacidade mágica de Blimunda e aos conhecimentos científicos do padre. Todos partilham do entusiasmo na construção da passarola, aos quais se junta um quarto elemento, o músico Domenico Scarlatti, que passa a tocar enquanto os outros trabalham. O saber artístico junta-se aos outros saberes e todos corporizam o sonho de voar.

Scarlatti: Veio como professor do irmão de D. João V, o infante D. António, passando depois a ser professor da infanta D. Maria Bárbara. Exerceu as funções de mestre-de-capela e professor da casa real de 1720 a 1729, tendo escrito inúmeras peças musicais durante esse tempo. No contexto do romance, para além do seu contributo na construção da passarola é determinante na cura da doença de Blimunda; durante uma semana tocou cravo para ela, até ela ter forças para se levantar.