segunda-feira, 5 de novembro de 2012



Análise de Poemas em “Os Lusíadas”
Segunda Parte: “Mar Português”
O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Análise
O poema tem por base a epopeia dos descobrimentos dos portugueses. Reflete a atitude perante um mar e um mundo, que eram então completamente desconhecidos. Essa, segundo o poema, uma atitude de coragem e de conquista, consequências do sonho. 
Para além disso, entendo que o poeta pretende transmitir a ideia de que o mar é uma ponte, um caminho, para se alcançar a terra. Ou seja, o mar une e não separa.   



Prece
Senhor, a noite veio e a alama é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade! 
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e saudade.

Mas a cahama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –,
Com quea chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

 Análise
No texto está presente uma relação entre o passado e o presente. O texto introduz uma ideia de esperança.
O último poema de Mar Português parece aproximar-se do misto da tristeza e de esperança.  

 

 

domingo, 4 de novembro de 2012



Análise de Poemas em “Os Lusíadas”


Terceira Parte: “O Encoberto”
O Quinto Império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer da asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo em que eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda a idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?  

 Análise
O Quinto Império revela a tentativa da fundação de um novo império ( o Português), esse império seria de ordem civizacional, cultural e universal.
Os quatro impérios eram:
  O Império Grego;
O Império Romano;
O Império Cristão;
O Império Inglês.
O Quinto Império seria o primeiro Império verdadeiramente mundial ou universal.

O Desejado
Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto sente-se sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!
Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele ao Santo Gral!

Análise
O texto apresenta um tom exortativo, marcado pelo recurso ao imperativo, onde o desejado é o D. Sebastião.
D. Sebastião, o «desejado», deverá cumprir o seu «novo fardo» e erguer a pátria, onde o povo espera a «Eucaristia Nova».
 



Interacção entre a “Mensagem” e “Os Lusíadas”
 Em ambas as obras os poetas debruçam-se detalhadamente sobre o Herói individual ou colectivo, real ou mítico, distinguindo-os e cantando-os,  porque merecem e porque os querem oferecer como exemplo e mensagem aos portugueses dúbios.
Camões apelidaos de “barões” e Fernando Pessoa de “Mestre da Paz”.
Na Dedicatória em “Os Lusíadas”,  Vasco da Gama descreve e narra ao Rei de Melinde os primórdios da Terra Lusitana, bem como os principais acontecimentos e figuras que a notabilizaram.
O Rei D. Sebastião, jovem, era para os portugueses de quinhentos o garante da independência da pátria. Camões anima-o, colocando-o nos pícaros da herocidade, tentando com o seu apelo, conservá-lo por muito e heróico tempo. Mas o Rei desapareceu e com ele a gema dos valorosos.  A Pátria não acreditou que perdera a independência para os Filipes assim tão fácil e abruptamente. Só 60 anos mais tarde, a 1 de Dezembro de 1640, a independência retornou.
Fernando Pessoa traz à memória dúbida dos Portugueses do século XX e da “erma noite”, em que vivem, o exemplo dos antepassados, fazendo um apelo ao patriótico para que eles recriem a grandeza “do dia claro”, do Império que já foi e se desfez com a morte de D. Sebastião . Mas, há diferença entre sebatianismo quinhentista e o pessoano. O primeiro ainda foi real durante algum tempo, passando depois à saudade e ao mito. O segundo arrecada do mito e da saudade a sua força e esvai-se em sonho e ilusão, indo busacr ao passado a esperança da recriação do império Português pré-sebastianista para o século XX, que se encontrava decadente e no mar revolto das diatribes politicas e culturais, inócuas e prevessas para o País.      
 





O Sebastianismo em “Os Lusíadas”
O Sebastianismo, conhecido também por mito sebástico ou mito do “Encoberto”, é um mito messeiânico originadono desaparecimento do rei D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir em 4 de Agosto de 1578, mas alimentando-se de raizes profundas, nomeadamente o Bandarrismo (Anes Bandarra, antecessor a D. Sebastião) e ainda aos mitos ensolares do Encobierto, além de outras fontes de profetismo judaico correntes por toda a Europa. O Sebastianismo aproximou-se do Bandarrismo ao longo do período da Restauração (1640), e de mitos e lendas sobre a independência. 
A vontade que D. Sebastião estivesse vivo, para garantir a restauração nacional, o caudal de dúvidas e lendas acerca do seu desaparecimento, dão corpo a este mito messiânico português que é o Sebastianismo, sendo uma “resposta” mítica do povo tiranizado, humilhado pela independência perdida (“Enquanto fomos escravos  de Felipe/Ovelhas seremos de D. Sebastião”).